Um Rio de ódio: jogador do Madureira foi alvo de racismo após lesionar Gustavo Scarpa, do Fluminense

Ofendido por torcedores do Fluminense, Douglas foi formado pelas categorias de base do Tricolor Foto: Fábio Guimarães

Bruno Alfano, Luã Marinatto, Pedro Zuazo e Rafael Soares

extra

27/07/2017 08:14:51

Douglas Lima vivia um sonho. Depois de 12 meses sem oportunidades no futebol, quando se virou como pedreiro e entregador de piso, o jogador, aos 23 anos, era destaque na surpreendente campanha do Madureira no Campeonato Estadual. Na semifinal, contra o Fluminense, na tarde de 25 de fevereiro, um carrinho imprudente no meio-campo atingiu em cheio Gustavo Scarpa, craque do Tricolor, que sofreu uma grave lesão. Um acidente de trabalho que poderia ter se encerrado no pedido de desculpas entre os atletas, devidamente aceito nos dias seguintes, mas que valeu ao jovem de Mesquita, na Baixada Fluminense, uma marca mais profunda do que qualquer fratura: a do racismo. Na internet, revoltados com o lance, torcedores chamaram Douglas de “crioulo safado” e “comedor de banana”. A denúncia sobre os ataques feita pelo rapaz à Polícia Civil é apenas um dos 201 casos envolvendo crimes de intolerância registrados no estado entre janeiro e junho deste ano, numa média superior a uma ocorrência diária. A partir de hoje, na série de reportagens “Um Rio de ódio”, o EXTRA destrincha as estatísticas do preconceito, em um levantamento inédito, e conta a história de parte dessas vítimas.

— Precisei voltar ao Brasil para sofrer, pela primeira vez, uma discriminação como essa — diz Douglas, que, antes do período sem clube, chegou a passar três meses atuando na Espanha, onde relatos de racismo são frequentes.

Os números analisados pelo EXTRA consideram todos os casos em que, ao realizar o registro de ocorrência, o policial civil responsável indicou, na aba “motivo presumido”, as opções racismo, homofobia ou intolerância religiosa — os outros dois temas serão abordados na continuidade da série. Desse modo, qualquer tipo de crime pode surgir na busca, desde que esteja inserido nesses contextos. As situações mais frequentes, porém, envolvem injúrias, ameaças e lesões corporais.

Não é possível computar na pesquisa, por exemplo, casos nos quais o agente que fez o registro não sinalizou a possível motivação. Além disso, tratam-se de crimes com alto índice de subnotificação, quando a vítima não procura a Polícia Civil. Este ano, o fenômeno foi potencializado ainda pela greve que atingiu a corporação de meados de janeiro até o início de abril — ou seja, o total de ocorrências envolvendo intolerância tende a ser consideravelmente maior. O próprio Douglas tentou registrar o caso, inicialmente, na Delegacia de Repressão aos Crimes de Informática (DRCI), mas não obteve sucesso. Apenas na segunda tentativa, na 17ª DP (São Cristóvão), foi possível dar início às investigações.

— Minha mãe, minha tia, todo mundo pediu para registrar. Não tinha como deixar pra lá — conta o jogador, ainda sob contrato com o Madureira.

Pelas ironias da vida, Douglas fez a maior parte de sua formação nas categorias de base justamente do Fluminense. Entre os 9 e os 15 anos, ele saía todos os dias de Mesquita antes mesmo de o sol raiar e seguia para Xerém, onde estudava e arriscava os primeiros dribles e chutes como aspirante a jogador profissional, no Centro de Treinamento do clube. A forte ligação com o Tricolor, contudo, não traz à tona mágoas pela atitude de parte da torcida:

— Sei que foi coisa de uma minoria. Teve gente, inclusive, que recriminou quem fez, mesmo também estando chateados com a situação.



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