Folheto da Riotur distribuído a turistas tira favelas da geografia da cidade

Favela Santa Marta Foto: Alexandre Cassiano / Agência O Globo

Camila Zarur e Ludmilla de Lima

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11/09/2017 08:21:36

O Rio não tem favela. Ou, pelo menos, é o que parece nos mapas oficiais da Riotur distribuídos a turistas. A contradição entre o material impresso e a realidade é tanta que quem passeia com ele na mão pode ficar sem entender nada: nos folhetos, no lugar de favelas como a Dona Marta, só se vê florestas ou espaços vazios. A gigante Rocinha foi praticamente apagada: na localização da comunidade, aparece apenas o nome do bairro e poucas ruas, perdidas em meio a duas áreas verdes. Sequer com nomes citados no gráfico, o Chapéu Mangueira e a Babilônia se resumem a trechos de mata contornando a orla do Leme.

Com essa representação da geografia carioca, os mapas deixam de fora cerca de 1,4 milhão de moradores do Rio, de acordo com o censo de 2010 do IBGE. Mas, na hora de vender os roteiros pela cidade, essa população não é deixada de lado. Na revista oficial da mesma Riotur, as favelas aparecem na sessão “Tours especiais”, espécie de classificados de empresas que fazem circuitos turísticos pelas comunidades.

— É triste ver que um órgão promotor do Rio mantém esse estigma antifavelas. Pelo mapa, é como se elas não existissem. Não podemos apagá-las da nossa paisagem. Vivemos momentos difíceis, sabemos que o turista não pode entrar nesses territórios quando não há segurança. Mas o turismo pode ser uma forma de integrar as comunidades mais pobres ao restante da cidade — afirma Pedro da Luz, presidente do Instituto de Arquitetos do Brasil no Rio (IAB-RJ).

'É um retrocesso’

“Esconder” comunidades não é um fenômeno novo. Nos mapas anteriores da Riotur, as favelas também foram camufladas. Até mesmo em 2014 e 2016, na Copa do Mundo e na Olimpíada, não havia menções aos morros cariocas nos folders entregues a visitantes.

— Em 1992, quando o Rio sediou a conferência mundial da ONU sobre meio ambiente e desenvolvimento, havia um posicionamento para que nenhuma favela fosse representada nos mapas oficiais. Manter essa mesma política é um retrocesso de mais de 25 anos. É um absurdo — critica o geógrafo Jailson de Souza e Silva, um dos fundadores do Observatório das Favelas.

Os mapas atuais foram produzidos pela própria Riotur, por meio de um levantamento aéreo. O primeiro guia do tipo saiu há dez anos, num trabalho da cartógrafa de Curitiba Mirian Isabel Say. E, de tempos em tempos, as cartas são atualizadas com novas informações da cidade, com base também em informações do Instituto Pereira Passos (IPP). Porém, diferentemente da empresa municipal de turismo, o IPP dá a localização das favelas em seus mapas.



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